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  • Foto do escritorSusana Cruz

Carnaval Genuíno XIII - Vinhos à mesa

Capítulo 13

MATILDE



Terá sido a minha imaginação, ou ele deu-me mesmo um beijo? Ele age de forma natural como se não tivesse acontecido nada. Os pais dele aproximam-se da cozinha e o Miguel faz-me gestos pedindo que acorde deste transe. Tenho que recuperar a minha postura, e volto ao trabalho. Fica difícil com ele a olhar assim para mim. Ora… cortar…abrir o pacote… as carnes…fumadas… e…e… claro está, desorientada outra vez.

Depois de colocar as carnes fumadas na panela, coloco a alheira no forno. De volta à terra.

- Olá, querida, já estás por aqui? - A Sra. Matos aproxima-se e cumprimenta-me, depois vira-se para o filho enquanto tira o casaco. - Miguel, aí parado sem fazer nada? Vamos lá a fazer alguma coisa, se faz favor. - Eu disse que tinha sido eu a recusar ajuda, mas ela não aceitou a minha desculpa, enquanto isso ele cruza os braços e fica a olhar para nós desfrutando a discussão.

- Querida… - Avança a mãe. - … fazer o almoço não é obrigação de uma pessoa apenas, uma vez que todos comem cá em casa passa a ser… - a frase da mãe é terminada pelo filho.

- …Obrigação de toda a gente da família. E agora, já posso fazer alguma coisa? - Continua de braços cruzados à espera que eu lhe dê algo para fazer.

- Mãe, fica descansada que nós temos tudo sob controlo, tu e o pai podem pôr a mesa, por favor. – Diz o filho enquanto a mãe vai pousar o casaco, sem mudar os braços de posição, nem tirar os olhos de mim.

O olhar do Miguel ia ficando ameaçador, mas não me mete medo, acho-o engraçado. Acabei por lhe dar a tarefa de lavar as batatas e os grelos.

- Não vou descascar as batatas? Para quê lavar? - Relembro-me do desafio de lhe ensinar pratos gastronómicos locais.

- Vamos fazer para entradas alheira no forno e carnes fumadas à Barrosã. As carnes fumadas à Barrosã é semelhante ao cozido à portuguesa. Para prato principal fazemos posta à Mirandesa com batatas a murro e grelos salteados. - Ele ouve tudo com atenção.

- Batatas a murro, mas… dar um murro enquanto estão cruas, porquê? - Pergunta ele. Eu explico que o murro é dado após a cozedura das batatas e ele esboça um sorriso malicioso perguntando se ele pode dar um murro nas batatas.

- As batatas vão ser bem lavadas com casca, depois coloca-se num tabuleiro com alho, azeite e sal e é então que se dá o murro.

Vira-se então para a banca para lavar as batatas mas para novamente para perguntar.

- Com casca? Vou ter que comer as batatas com casca? - Esboço um sorriso, é claro que a casca é fina, fácil de comer, mas também fácil de retirar.

- Comes a maçã com casca? - Ele fez uma pausa mas continuou a refilar.

- Não é isso, as batatas são da terra. - Cá dentro ria-me, mas tenho que demonstrar autoridade.

- Por isso é que as lavas. Mas tu tens que refilar com tudo? Lava as batatas porque foi o que eu mandei! - Bem baixinho ainda oiço um murmurar, algo como "parecida com a minha mãe". Ainda assim abaixa a crista e faz o que lhe peço.

- Quando acabares coloca-as na panela que já está no fogão com sal.

Enquanto ambos fomos trabalhando também fomos conversando, surgiam temas encadeados como a saúde da minha avó, os nossos estudos, os treinos dele, entre outros. Por vezes eu parava de falar assim que notava a demasiada aproximação do Miguel, eu sei que a cozinha não é grande, mas será que é suficientemente pequena para chocar tantas vezes comigo?

Os pais dele vinham de vez em quando à cozinha para ver se corria tudo bem ou se precisávamos de ajuda.

- A cozinha não é grande, podem ficar descansados que eu controlo as coisas por aqui. - Digo eu cada vez que eles insistem em ajudar.

Entretanto as carnes acabam de cozer e eu aproveito a água do cozido, guardando para mais tarde. Ao mesmo tempo que coloco os grelos a cozer, também coloco os bifes nas brasas e o Miguel coloca as batatas no tabuleiro e dá-lhes um murro. Ele parece divertido. Sentiu o gosto em amassar as batatas, tenho que lhe dizer para não usar tanta força.

Enquanto o Miguel corta a alheira e as restantes carnes aos pedaços. Eu coloco as batatas no forno para alourar e os bifes na brasa acrescentando uma pitada de sal grosso.

- Agora diz-me Miguel, que tipo de vinhos usarias para acompanhar estes pratos? - Ele prova a alheira e pergunta-me que ingredientes a compõe. Paro um pouco para pensar e lembro-me da história da alheira.

- É uma espécie de chouriço mas sem carne de porco, era consumida pelos judeus que fingiam comer chouriço apagando quaisquer suspeitas sobre a origem judaica dos seus compradores. A tradicional era essencialmente feita com carne de frango ou outras aves. Hoje em dia já há alheira com um pouco de todas as carnes. Esta alheira vem da casa da minha prima Mariana, a mãe dela produz alheiras. - Até então esteve sério e mantém a seriedade para pensar no vinho a acompanhar.

- Era capaz de ficar interessante com um vinho branco espumante, comi-a há uns dias atrás como prato principal. Ou até um Rosé seco. - Espumante com alheira, curioso, nunca me tinha passado pela cabeça.

- E a carne à Mirandela leva alguma coisa mais do que sal? - Solto uma gargalhada, ele disse Mirandela em vez de Mirandesa.

- Posta à Mirandesa. - Corrijo enquanto grelho a posta. - A posta à Mirandesa vem de um tipo de vaca a que chamamos Mirandesa e é da região de Miranda do Douro, não é sequer de Mirandela. - Viro de costas para o Miguel. Aproveito para virar as carnes na brasa enquanto falo. - É um naco de carne grosso mas tenro. Corta-se o bife bem alto, grelha-se na brasa só com sal e serve-se mal passado. Acompanha-se com o grelo, a batata a murro, essa sim, tem o molho que fizeste com azeite, colorau, alho picado e sal. Esse molho deita-se por cima do bife só quando se vai a servir na mesa.

Quando me viro para ele, vejo que ele parecia estar a olhar na direção do grelhador, estremece e fica atrapalhado. O que estaria ele a tramar?

- Está tudo bem? - Pergunto, mas a única resposta saiu muito gaguejada.

- Sim, sim… estava só… olhava, não… pensava no vinho… é isso, pensava no vinho que acompanha a carne. - Cruzo os braços e penso. Não caio nessa Sr. Miguel, estavas a olhar para onde não devias, oh malandro.

- E qual é a sua conclusão? - É mesmo para o deixar envergonhado, não tinha nada que ficar especado a olhar para o meu rabo. Mas no fundo até gosto de perceber que ele está interessado.

- Bom… - Limpa o suor da testa com o papel de cozinha enquanto fala. - …eu concluía, quer dizer, eu juntava… usava, o vinho tinto. - Eu ainda estou de braços cruzados, reparo que ele começa a sentir-se intimidado e uso um tom mais ameaçador

- Mas que tipo de vinho tinto, Dr. Matos? - Desta vez ele coça o pescoço.

- Assim, tipo, jovem 3 anos, pois é isso.

Perco a compostura para me rir da expressão dele, parece tão infantil como se tivesse partido uma jarra e tivesse medo de contar à mãe. Dou-lhe um pedaço de carne com o molho que se deve juntar. Dei o garfo para a mão e em vez de pegar no garfo pega-me na mão. Desta vez fico eu atrapalhada, ele age agora naturalmente provando o pedaço da posta.

- Sim, vinho tinto sem dúvida, e acho que o meu pai iria gostar que fosse acompanhado com reserva. Acho que tenho o vinho perfeito na garrafeira, e nem é preciso levá-lo ao frio. Já volto. - Sai da cozinha em direção à cave e eu fico a acabar de empratar as carnes.

Tenho já tudo em travessas, alheira, carnes fumadas à Barrosã, os grelos, batatas a murro e os bifes. Chamo os pais do Miguel e colocamos tudo na mesa. Entretanto chega o Miguel com duas garrafas. Pega no saca-rolhas e abre uma delas, cheira a rolha e serve no copo, mexe, cheira novamente e prova.

- Reserva sete anos, vai ficar bem com as carnes. - Abre depois a segunda com o mesmo procedimento e diz - Mãe, este é especial para ti. É um vinho branco português de uva Aragonês, muito usada também aqui na região. - Eu olho para o Miguel em silêncio, se é muito usada por aqui porque é que nunca ouvi falar nela?

- Miguel, eu não estou a ver qual é a uva. - O Miguel pega no seu smartphone e procura algum aplicativo.

- Ora, Aragonês pode ser traduzido por Temperanilho. - Abano a cabeça, também não reconheço - Tinta Roriz. – E faz-se luz. Tão rapidamente se fez luz como a perdi outra vez, é que Tinta Roriz é isso mesmo, é tinta, não é branca, como pode surgir daí um vinho branco? Enquanto nos fomos sentando ele foi explicando.

- Toda a gente sabe que o vinho branco vem da casta branca, e o vinho tinto vem da casta tinta. Mas sendo que o que dá a cor à uva é mesmo a película, se tirarmos a película fica sem cor, portanto fica branco. E é exatamente o mesmo processo no vinho rosé, fica só o tempo suficiente para adquirir a cor rosada. - De repente fico a compreender o vinho rosé.

Nunca me tinha questionado como se fazia o vinho rosé, pensava que vinha de um trabalho complexo de tingimento ou mistura de uva branca com tinta. Mas cá está! Tão simples, tão natural.

- Os vinhos rosés e brancos de uvas tintas são geralmente frutados e levemente adstringentes.

O Sr. Matos sentou-se em frente à esposa, e o Migue ao lado do pai. Ficou assim o lugar em frente ao Miguel livre, onde me sentei. Intimidatório sem dúvida. Provo ambos os vinhos e prefiro acompanhar a refeição com o branco dedicado à Sra. Matos. Prefiro um vinho que torne a refeição mais leve. O tinto deixa-me uma secura na boca um pouco desconfortável. Até parece que já percebo de vinhos. Para quem, na semana passada não queria nada com bebidas alcoólicas, esta semana sinto-me enóloga.

Fomos seguindo com as conversas de ocasião durante o almoço. É uma família feliz, bem carinhosa e comunicativa, dá gosto conversar. O Miguel e o pai pareciam cúmplices entre eles.

No final do almoço todos ajudaram a levantar a mesa, o Miguel agarrou-se à loiça e lavou-a, ainda insisti para me deixar lavar, mas não deixou, de facto ainda estava a curar das feridas e a água só ia atrasar o curativo. Nota-se que já tem experiência a lavar a loiça, fê-lo rapidamente, devo confessar que me agrada a companhia do Miguel… e o seu cavalheirismo, eles chamam de igualdade de deveres e direitos. Enfim, seja lá o que for, eu estou a adorar ter a atenção e carinho do meu careto. Quando termina, vira-se frente a frente comigo enquanto limpa as mãos com o pano seco ficamos mudos, só a olhar um para o outro. A cozinha está arrumada mas não sentimos pressa em ir para a sala.

- As sobremesas estão na mesa, tragam os cafés! - Ouve-se uma voz masculina da sala, o Sr. Matos tinha trazido os doces como o prometido.

- São quatro cafés? - Pergunta-me o Miguel.

- Sim, obrigada. Eu ajudo a levar os cafés. - Enquanto ele prepara os cafés eu pego no açúcar e nas colheres. Afinal o Miguel não precisava de ajuda, ele agarra num tabuleiro e, com delicadeza, tira-me o açúcar e as colheres das mãos e coloca no tabuleiro. Mais uma vez a aproximação era tanta que não sei se o oiço a respirar dele ou era o meu próprio respirar que eu sinto. Sorri para mim e eu solto um sorriso de volta.

Fomos até à sala e sentamo-nos nas nossas cadeiras e conversamos todos um pouco mais. O Sr. Matos trouxe miniaturas de doces, eram pastéis de nata, éclaires, bolos de feijão e queijadas.

Entretanto já passava das 15h30 e os Srs. Matos queriam descansar um pouco. Eu e o Miguel despedimo-nos e saímos de casa.

Ele acompanha-me até minha casa. Vamos lado a lado e continuamos as conversas de ocasião iniciadas umas horas antes. Pelo caminho aparecem dois colegas dele que se juntaram a nós a descer a rua. Fiquei a saber que estes rapazes apenas vieram passar o carnaval à vila. Estão a estudar no Porto e são outro exemplo de família que saiu da vila para uma esperança de futuro. Estes decidiram vir passar o Carnaval todos os anos e manter a lembrança dos Caretos viva. Estão a pensar em criar uma associação de apoio aos Caretos de Podence.

- Quase ninguém conhece os Caretos fora da vila. – Dizem os rapazes. – Já me pediram para levar o fato um destes dias. Olha que sou capaz. Seria engraçado andar de autocarro com o fato de careto. – riem-se os três.

Seria interessante ver a tradição crescer para fora dos limites da vila.

- Eu fico aqui. Até amanhã. - Ele ainda insistiu que eu fosse com ele, e o seu grupo, beber um copo.

- Não gosto de grandes folias em grupo, vai tu, eu vou fazer como os teus pais, vou descansar para casa. - Custa-me despedir-me dele, mas de facto, eu não me sinto nada confortável dentro de um grupo de muita gente a beber álcool. Prefiro ficar no sossego do lar. Mas incito-o a ir, ainda deve ter muito a conversar para compensar os dezasseis anos longe da vila.

- Rapazes, podem dar-me um tempinho aqui? Eu vou ter convosco à tasca. Vão indo. – O Miguel quer ficar a sós comigo. Olho para o chão enquanto os dois rapazes se afastam.

- Eu gostei muito do almoço. Obrigado.

- Eu também. Os teus pais são muito queridos. Obrigada pelo convite. – Tentando disfarçar o nervosismo mantenho as mãos agarradas com os dedos cruzados entre si à cintura.

- Eu espero. – Esperar? O que é que ele quer dizer com isso?

- Esperas porquê?

- Que entres em casa, claro. – Ah, pois é. Eu, vou entrar em casa. Pois.

Abro a porta, entro e fico a olhar para o Miguel a partir do lado de dentro. O telemóvel dele toca e ele atende.

- Olá. Sim. Já estou a ir para aí. Estou, estou perto. Até já. – E desliga.

- É o Carlos. Se calhar eu vou indo.

- Vai, eles estão à tua espera. Aproveita. – Distancia-se pouco a pouco. Fecho a porta e fico sozinha. Fico a sós comigo mesma.

Tiro o casaco sem pressa. Abro as precianas da sala para entrar luz, coloco música ambiente e sento-me no sofá. Gosto de ouvir instrumental. E fico a sós com os meus pensamentos. Não tinha reparado, mas tenho uma mensagem da Mariana recebida há mais de 1 hora. Vou telefonar-lhe, ela tem que saber que ele me roubou um beijo. Se isto é a verdadeira felicidade, eu quero vivê-la todos os dias.


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